quinta-feira, 31 de maio de 2012

quarta-feira, 30 de maio de 2012

#22

acordei mais tarde do que deveria, outro dia, e a descarga estava funcionando perfeitamente.
em compensação, minha garganta nunca mais viu a luz do dia...

acho que ando vendo conexões demais.

terça-feira, 29 de maio de 2012

"See the smokestacks belching?"

seu cheiro no meu ombro e tudo de novo outra vez - até explodirem a Roda, pelo menos.

A sirene avisa: instabilidade sob controle, cadeia mantida, produção pra mais mil anos.

domingo, 20 de maio de 2012

a dandy line

entrei com esperança de que ela tivesse alguns discos, mas não.
daí sintonizei uma rádio de jazz qualquer e me joguei no sofá [não tinha como aguentar um silêncio àquela hora].

'sabe, qualquer dia desses eu vou te comprar uns bolachões'
"pra quê?" ela perguntou logo antes de se fechar no banheiro: "já tenho o rádio, tá de bom tamanho. aliás, eu nem tenho vitrola!"

aí tá certo, foi o que eu pensei - e continuei pensando enquanto ela ficava lá dentro.
'mas desse jeito não dá pra escolher o que você vai ouvir' foi com o que eu consegui sair assim que ela sentou do meu lado.
"e daí, se eu pudesse? que graça ia ter?"

por mais que tentasse, eu jamais teria uma resposta. felizmente, ela me beijou e acabou logo com aquilo.

**

durante todo o tempo em que a gente ficou naquele sofá, eu não conseguia parar de pensar em como uma pessoa conseguia viver sem um único disco em casa - e, mais importante: como eu podia confiar em alguém assim?

#21

a descarga está de mal a pior - e agora o registro começou a vazar.
me pergunto se existe alguma ligação.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

uma Jornada e seu Fim

três anos se passaram no deserto, durante os quais Filho Tomás calcou sem folga suas feridas contra a areia quente.

gafanhotos e escorpiões lambiam o sangue de suas pegadas, e deles nosso herói fazia almoço, janta e ceia.

ao final do sétimo dia do quarto mês do último ano de sua mortificação, Tama Tamati fincou seu cajado no chão para assentar-se em acampamento. naquele instante, um jorro de leite fresco verteu da terra, em tal abundância que logo atingiu suas canelas e cobriu-lhe a pele de nata.

mesmo faminto e esgotado de tanto caminhar, ele apanhou sua tralha e rumou ainda alguns metros, ao cabo dos quais tornou a fincar o cajado no chão.
desta vez, foi mel que borbulhou do solo, em gotas tão grandes que logo lhe cobriram os joelhos, e tão perfumadas que atraíram multidões de abelhas.

mais uma vez, Tama Tamati resgatou suas posses e caminhou mais tantos metros, mal enxergando os próprios passos no lusco-fusco. sua cabeça girava e seus braços quase não lhe obedeceram quando fincou o cajado no chão uma vez mais.
nem todos os tonéis e pipas de sua terra natal poderiam conter tamanho volume de vinho que esguichou da nova fenda, tingindo-lhe toda a veste de púrpura e inebriando-lhe os sentidos apenas com seus vapores.

juntando fôlego pela terceira vez, nosso herói ergueu seu fardo e caminhou com dificuldade para fora do lago tinto. ao alcançar terra seca, já completamente imerso em uma noite sem lua, nosso herói tombou de joelhos em completa exaustão.

sem poder sequer segurar o cajado entre os dedos, seus olhos se apagaram e Tama Tamati foi abandonado a um sono vazio de sensações.

domingo, 13 de maio de 2012

05 de maio, 789 d.C.

"deixei shinjuku cair do meu bolso."

sexta-feira, 11 de maio de 2012

cena à cabo

o bairro quieto, a tevê, a chuva que não vai cair.
ela se perde nos pêlos de sua perna - labirinto em caracóis, esconderijo perfeito para os doze minotauros melancólicos.

terça-feira, 8 de maio de 2012

enquanto isso, no clube do cupim

"aliás, que que aconteceu com a inglesa?"
'aquela maluca?'
"é."
'voltou pra inglaterra, ué.'
"mas ela não tava querendo se transferir pra cá, e tal?..."
'até tava, mas a galera expulsou ela do país.'
"quê?!"
'cê não ficou sabendo?'
"como assim, expulsa?"
'ah, ela era meio xarope...'
"tá, disso eu sei!"
'então. eu não lembro cem porcento, mas parece que ela tretou com a namorada de um cara que morava na mesma república, aí rolou um boxe...'
"sério?? de agressão e tal?"
'sérião. daí fizeram um b.o. e ela teve que cair fora'
"caralho..."
'poisé.'
"ah, mas que pena. eu até que ia com a cara dela."
'sim, ela era super!'
"maluca de tudo."
'mais treze que doce de batata treze.'
"e ninguém tem o contato dela?"
'graças a deus.'

segunda-feira, 7 de maio de 2012

#20

ainda não consigo confiar em cochilos depois do almoço.

domingo, 6 de maio de 2012

sacro ofício

Tama Tamati chegou na encruzilhada cansado e faminto;
sentou o corpo na terra e pôs-se a ponderar.

todos os caminhos lhe eram iguais,
e iguais eram as montanhas que o cercava;
no vento, nem maresia nem secura se sentia,
e seus olhos não alcançavam luz alguma no céu.

"e era isso então", pensou Filho Tomás,
"o que me esperava além daquela cerca."

depois de longas horas, alcançou o punhal
e traçou fundos sulcos nas solas dos pés;
ergueu-se e tomou qualquer rumo,
pois que todos eram o caminho da Dor.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

tombou de febre e sonhou com dentes-de-serra e contrabaixos sensuais.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

exercício mítico aleatório nº2

o rapaz de Ankara me disse pra ir, e as sete magnificências vibraram de acordo;

então eu tomei a estrada e subi para o Norte, até onde a estrada era capaz de subir para o Norte.

lá encontrei rios e lagos e bosques,
e vilas com mulheres e homens e cães que me acolhiam durante a noite,
e noites solitárias em que o frio me mordia sem piedade
e torres tombadas e vales imundos
e grandes planícies cheias de silêncio
até que a estrada deixou de subir para o Norte.